De Paranaguá a Portugal: fandango caiçara atravessa o Atlântico para celebrar suas raízes
Os grupos Mestre Eugênio e Mandicuera embarcam para Portugal entre os dias 5 e 16 de novembro
Representantes dos grupos parnanguaras Mestre Eugênio e Mandicuera embarcam para Portugal entre os dias 5 e 16 de novembro para uma experiência de intercâmbio cultural. A viagem tem como objetivo conhecer referências históricas da musicalidade fandangueira, fortalecer os laços entre as tradições portuguesas e caiçaras e apresentar manifestações culturais do litoral paranaense em terras lusitanas.
A iniciativa é realizada pelo Grupo Mestre Eugênio, em parceria com o Grupo Mandicuera, com patrocínio da Itaipu Binacional. Ao todo, seis integrantes participarão da viagem, entre eles o mestre Aorélio Domingues, que já esteve em Portugal outras duas vezes. Para os outros cinco participantes, será a primeira visita ao país europeu.
“Este projeto só foi possível graças ao patrocínio que recebemos da Itaipu. Por isso, é muito importante a participação de empresas e leis de incentivo que apoiem a promoção da cultura”, destacou Aorélio.
A viagem também foi organizada a partir de um convite formal do professor da Universidade de Aveiro Jorge Manuel de Mansilha Castro Ribeiro, responsável científico pelo projeto Atlântico Sensível (AtlaS – Memória e mediação dos instrumentos e práticas musicais entre comunidades interligadas).
O roteiro inclui as cidades de Lisboa, Alenquer, Amarante, Castelo Branco, Penha Garcia e Aveiro, com atividades voltadas à pesquisa, à valorização das tradições musicais e à troca de conhecimentos entre artistas e pesquisadores.
Intercâmbio entre violas e tradições populares
Um dos destaques da programação será o encontro entre a viola caiçara e a viola beiroa, instrumento tradicional português apontado por Aorélio como uma das referências históricas das primeiras violas brasileiras.
Em Castelo Branco, os integrantes conhecerão iniciativas de preservação, fabricação artesanal e ensino relacionado às violas. Já em Amarante, a visita será marcada pela homenagem a São Gonçalo de Amarante, sacerdote e frade dominicano português considerado padroeiro dos violeiros no Brasil.
“A gente vai para Portugal levar a viola, a musicalidade, em homenagem a São Gonçalo de Amarante. A gente quer fazer o retorno dessa cultura portuguesa que veio pra cá e segue sobrevivendo, se transformando aqui”, afirmou Aorélio.
Outro momento importante será a passagem por Alenquer, cidade relacionada aos registros históricos das Folias do Divino Espírito Santo. A proposta é apresentar a tradição na igreja associada a essa história, aproximando as práticas mantidas pelas comunidades caiçaras no Brasil de suas referências portuguesas.
“A gente vai para Alenquer tocar a Folia do Divino na igreja onde tudo começou e segue edificada. É uma musicalidade da era medieval, que a gente toca de forma espontânea até hoje aqui no Paraná e em São Paulo”, explicou o mestre.
Em Penha Garcia, o grupo terá contato com as mulheres adufeiras, responsáveis pela produção dos adufos, instrumentos de percussão de origem árabe que lembram um pandeiro, mas possuem características próprias na construção e na tensão do couro.
Apresentação na Universidade de Aveiro
A principal atividade da viagem está marcada para o dia 13 de novembro, na Universidade de Aveiro. Na ocasião, os representantes de Paranaguá participarão de uma palestra e de uma apresentação cultural com o fandango caiçara.
O repertório também incluirá outras manifestações tradicionais preservadas no litoral brasileiro, como a Folia do Divino Espírito Santo, as brincadeiras do Boi de Mamão, o Terço Cantado em latim e a Folia de Reis.
Além de divulgar a cultura caiçara para o público português, a viagem será registrada em vídeo e dará origem a um documentário sobre a experiência, os encontros culturais e as conexões históricas entre as tradições dos dois países.
Para o fandangueiro Felipe Orlandino, um dos participantes, a oportunidade representa um momento especial para a cultura de Paranaguá.
“A expectativa é gigantesca, estamos muito felizes em levar nossa cultura para outro país”, declarou.
Fandango caiçara é patrimônio cultural
Presente no litoral do Paraná, o fandango caiçara é uma manifestação cultural tradicional que reúne música, dança, canto, poesia e convivência comunitária. O território caiçara se estende por áreas do litoral brasileiro entre Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, e a Baía da Babitonga, em Santa Catarina.
A tradição permanece viva por meio dos mestres, músicos, dançarinos e comunidades que preservam os saberes transmitidos entre gerações.
Em fevereiro de 2026, a Festa Nacional do Fandango Caiçara de Paranaguá foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Paraná. O reconhecimento ocorreu por meio do Projeto de Lei nº 508/2025, que incluiu a celebração no calendário oficial de eventos.
A viagem a Portugal amplia esse trabalho de valorização e divulgação, levando ao exterior não apenas o fandango, mas também outras expressões religiosas, musicais e populares que integram a identidade cultural do litoral paranaense.
Folia do Divino, Boi de Mamão e Folia de Reis
A Folia do Divino Espírito Santo está ligada à celebração de Pentecostes, realizada sete semanas após o Domingo de Páscoa. Nas comunidades caiçaras, a tradição envolve romarias, cantos, visitas às casas, bandeiras, levantamento do mastro e refeições compartilhadas. A musicalidade preserva características antigas, com instrumentos como violas e rabecas.
O Boi de Mamão, por sua vez, é uma manifestação popular tradicional do Sul do Brasil, marcada por encenações, personagens e música. No litoral paranaense, há registros da brincadeira desde a década de 1920. A apresentação integra o conjunto de expressões culturais que atravessaram gerações e continuam presentes nas comunidades.
Já a Folia de Reis é uma celebração popular católica realizada tradicionalmente entre 24 de dezembro e 6 de janeiro, em referência à visita dos Reis Magos ao menino Jesus. A festividade reúne músicas, orações, danças, vestimentas tradicionais e comidas típicas.
Com a apresentação dessas manifestações em Portugal, os grupos Mestre Eugênio e Mandicuera pretendem mostrar a diversidade da cultura caiçara e reforçar os vínculos históricos entre as tradições populares brasileiras e suas referências europeias.



